A vontade espiritual é algo misterioso que só nasce quando estamos livres de desejos pessoais ou de curto prazo. É a vontade universal que mantém as galáxias em movimento e alimenta a evolução de tudo o que existe. Mas ainda parece haver pouco espaço para ela na vida diária do cidadão moderno, frequentemente tumultuada pelo jogo das aparências e por obstáculos que ele cria em sua própria imaginação.
Entre as recomendações dadas pelo místico cristão São João da Cruz (frade carmelita) para o pássaro solitário _ símbolo da vontade da alma _ estão as que ele voe ao ponto mais alto, não anseie por companhia e mantenha seu bico voltado para o céu. Mas como manter o bico da nossa vontade voltado para o céu?
Primeiramente, não pode haver força de vontade sem paz interior. É preciso acalmar os desejos contraditórios (que tendem a anular-se uns aos outros) para que depois surja a vontade ativa que traz a serenidade e faz os supostos obstáculos desaparecerem às vezes inesperadamente. Em segundo lugar, não basta ter vontade. Quando voamos baixo, é preferível que tenhamos pouca força, porque o desastre da queda será menor. "Escolhe bem teus desejos, porque há o perigo de eles serem atendidos", disse um sábio. A natureza nos protege contra nossa própria ignorância e só permite o surgimento de uma vontade forte quando ela já é, também, elevada. Desse modo, vontade forte nada tem a ver com ideia fixa, teimosia ou obstinação cega - três formas perigosas de voar baixo mentalmente.
Para voar alto, é preciso estar livre do passado e levar pouca bagagem pessoal. A multa por excesso de peso das expectativas e ansiedade é terrível. Quase todas as dificuldades que enfrentamos em nossa viagem pela vida acontecem devido a apegos ao passado e ansiedades em relação ao futuro.Na maior parte dos casos em que temos pressa ou nos sentimos frustrados, estamos exagerando a importância do mundo externo. No mundo interior não há pressa. Lutar contra o ritmo da vida é inútil, e cada vez que uma situação nos decepciona temos a oportunidade de absorver mais uma lição de desapego, aprendendo a enxergar a realidade dos fatos. Isso inclui não deixar espaço para a auto lamentação nem para a pena de si mesmo. Normalmente, a força de vontade está esparramada e dividida entre muitos objetivos pequenos e sem importância. Renunciar à dispersão permite reunir nossas energias em torno de um só objetivo fundamental e aumenta radicalmente as nossas chances de vitória.
Como a força espiritual não está no plano físico, o seu uso não provoca cansaço e é potencialmente inesgotável. Ironicamente, a medida que passa o tempo vou percebendo que a principal tarefa da vontade espiritual - e a mais difícil, consiste em libertar-nos de objetivos ilusórios. Quando estamos livres de ilusões, a verdade pode aparecer naturalmente diante dos nossos olhos, e nossa vontade se volta por si mesma em direção ao que é bom e correto.
Para desenvolver a vontade espiritual, é preciso usá-la constantemente e renunciar ao desejo de viver em circunstâncias cômodas e agradáveis. E quando os primeiros frutos do uso correto da força de vontade já podem ser colhidos, o que devemos fazer é aumentar ainda mais o esforço para que a colheita, no futuro, seja maior ainda. Porque a força de vontade do ser humano tem um potencial extraordinário, e nada nos impede de fazê-la crescer cada vez mais rapidamente.
Carlos Aveline (Revista Nova Era - Planeta, número 4 - 1996)

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